Publicado por: Nádia Muniz

Para resistir por mais de 20 anos, a Ditadura Militar no Brasil contou com apoio civil-empresarial, ou seja, ela não era exclusivamente militar. Estes grupos ao financiarem a estrutura da repressão se beneficiavam com a ordem autoritária, especialmente de forma econômica, buscando aproximação com um capitalismo mais dinâmico. Outras formas de benefícios eram o subsídio de matérias-primas, extensão de prazo de recolhimento de impostos, empréstimos a custo zero, entre outros. Cabe aqui a observação mencionada pelo empresário, ex-governador biônico de São Paulo e integrante do IPES, Paulo Egydio Martins, em depoimento à Comissão Nacional da Verdade, de que os empresários não usavam o dinheiro de lucro de suas empresas, mas sim dinheiro de caixa dois nessas doações.

De acordo com o relatório da Comissão Nacional da Verdade, comissão criada para investigar violações de direito humanos entre 1946 e 1988, uma dessas primeiras articulações entre empresas e militares foi o grupo IPES/Ipês (sigla de Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais), cujo objetivo era desestabilizar o governo através de propagandas que representavam o Brasil como desordenado, babélico. Outro discurso proferido pelo IPES era o de que João Goulart estabeleceria no Brasil uma república sindicalista, sobre isto, a jornalista Laura Capriglione faz um interessante paralelo com as manifestações pró-impeachment, relembrando do forte discurso propagado de que Dilma tencionava transformar o Brasil em uma “Nova Cuba”, uma “República bolivariana”.

Não pode deixar de ser citado que as colaborações dos grupos empresariais estenderam-se igualmente às práticas terroristas estatais, como na Operação Bandeirante (Oban), cujo objetivo era centralizar o esquema de segurança, onde “empresários ligados à Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e ao ministro Antonio Delfim Netto contribuíram com a “caixinha” da Oban, sendo que dentre eles estava Sebastião Camargo, dono da Camargo Corrêa, então maior empreiteira do país”

Fortalecidos pela ditadura, o poder político empresarial se estende à Constituição de 1988, garantindo que houvesse continuidade do modelo de economia nacional em função das grandes corporações nacionais e o Estado servindo de financiador e impulsionador deste desenvolvimento, desviando, com apoio da lei, dinheiro público para a prática empresarial privada, de acordo com o historiador Fábio Venturini. Foi através deste protecionismo estatal, portanto, que grandes grupos econômicos se formaram e expandiram, como Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Mendes Júnior e Odebrecht (construção civil), na indústria pesada (siderurgia, metalurgia, cimento etc.), com Gerdau, Votorantim e Villares; no sistema bancário, Moreira Salles, Bradesco e Itaú; e, no setor midiático, o grupo Folha e a Rede Globo de Televisão, apenas citando os mais conhecidos.

Influências de grupos empresariais na política no presente

O grupo Camargo Corrêa investiu entre 2002 e 2012 mais de 170 milhões de reais nos seus candidatos. Junto com a Odebrecht, elas foram umas das maiores financiadoras de integrantes da comissão especial do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, além de terem sido alvos de investigação da operação Lava Jato. Também alvo da Lava Jato, a Mendes Júnior foi acusada pela Procuradoria e Ministério Público de dar propina ao presidente do Senado Renan Calheiros em troca de medidas que favoreceriam a empreiteira. Nas eleições de 2014 a construtora Andrade Gutierrez financiou mais de 33 milhões em campanha, o Bradesco mais de 30 milhões e o Itaú mais de 26 milhões. A Fiesp gastou, do mesmo modo, milhões em campanhas e foi a principal articuladora do impeachment. O grupo Folha e a Globo ganham destaque por sua cobertura midiática e serão discutidas suas atuações em artigos específicos. Mais recentemente, temos o episódio em que um cheque de 1 milhão de reais foi pago pela Andrade Gutierrez ao presidente interino Michel Temer durante a campanha de 2014.. É desta forma, portanto, que os grandes grupos empresariais interferem e atuam na política brasileira há, pelo menos, sete décadas.

No caso de Dilma, o diplomata e ex-secretário-geral do Itamaraty, Samuel Guimarães, explica que um dos fatores para sua campanha oposicionista empresarial decorreu da política de redução de juros, que diminuiu a transferência de riqueza da sociedade e do Estado para os bancos privados. Caracteriza-se, assim, a intenção empresarial de manter uma ditadura de mercado.

Podemos, portanto, parafrasear Samuel Guimarães para caracterizar quem são os apoiadores de golpes ao longo da história: “Aqueles que defendem hoje o impeachment e criam o clima de instabilidade e de radicalização são os mesmos golpistas históricos de 1954 e de 1964: as classes privilegiadas que temem o progresso e os resultados da democracia e não os aceitam”.

Mostramos, de forma mínima, como os mesmos grupos empresariais e famílias continuam a exercer hegemonia, dominando o cenário político, obtendo favorecimentos e aumentando seus impérios monopolistas. Trazemos, ao fim, uma imagem emblemática, retirada do texto de Pedro Campos, de uma Publicidade do Sindicato da Indústria de Máquinas do Estado de São Paulo, publicada na revista O Empreiteiro, nos anos 70, cuja frase remete imediatamente ao slogan adotado pelo governo de Michel Temer (“Não pense em crise, trabalhe”). Qualquer semelhança é mera coincidência.

nc3a3o-conteste

Referências

ALESSI, Gil. Cheque de 1 milhão de reais para Michel Temer joga holofotes em ação do TSE. Disponível em: <http://brasil.elpais.com/brasil/2016/11/10/politica/1478806225_516897.html?id_externo_rsoc=FB_BR_CM>. Acesso em: 15 nov. 2016.

AZENHA, Luiz Carlos. Fabio Venturini: No golpe dos empresários, a “mais beneficiada foi a Globo”. Disponível em: <http://www.viomundo.com.br/denuncias/fabio-venturini-no-golpe-dos-empresarios-se-uma-empresa-foi-beneficiada-a-mais-beneficiada-foi-a-globo.html>. Acesso em: 05 nov. 2016.

BRASIL. Comissão Nacional da Verdade. Relatório final, volume II. Disponível em: <http://www.cnv.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=571>. Acesso em: 05 nov. 2016.

CAMPOS, Pedro. Empresários e Ditadura. Disponível em: <https://blogdasubversos.wordpress.com/2013/03/09/empresarios-e-ditadura/>. Acesso em: 05 nov. 2016.

CAPRIGLIONE, Laura. Saudades dos aviões da Panair: os empresários que não toparam pagar pau para a Ditadura. Disponível em: <https://br.noticias.yahoo.com/blogs/laura-capriglione/saudades-dos-avioes-da-panair-os-empresarios-que-191005796.html>. Acesso em: 05 nov. 2016.

EMPRESÁRIOS e Ditadura: um regime militar e também civil. Entrevista com o pesquisador Fabio Venturini. Rede Puc. maio/2014. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Muoez0jdIZE>. Acesso em: 06 nov. 2016.

GOMES, Rodrigo. Paulo Egydio Martins e os financiadores do golpe de 64. Disponível em: <http://jornalggn.com.br/noticia/paulo-egydio-martins-e-os-financiadores-do-golpe-de-64>. Acesso em: 05 nov. 2016.

GUIMARÃES, Samuel Pinheiro. Impeachment, golpe de Estado e ditadura de ‘mercado’. Disponível em: <http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Politica/Impeachment-golpe-de-Estado-e-ditadura-de-u21Cmercado-u21D%0A/4/33218>. Acesso em: 05 nov. 2016.

LEVANTE Blog. As empresas que financiaram a ditadura são as mesmas que controlam o atual sistema político. Disponível em: <http://levante.org.br/blog/?p=292>. Acesso em: 05 nov. 2016.

VENTURINI, Fabio Cesar. Estado, Grande Indústria e Militares: as Relações de Poder no Setor Metalmecânico no Brasil (1964-1978). 2008. 253 f. Dissertação (Mestrado em História Social) – Programa de Estudos Pós-Graduados em História, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2008. Disponível em: <https://sapientia.pucsp.br/handle/handle/13060> Acesso em: 05 nov. 2016.

Anúncios